Do Corvo para o prato: Qualidade e Sustentabilidade

 

Gosta de peixe? Se é um apreciador de peixe e quem sabe se por acaso está neste momento a olhar para uma boa posta de atum, ou um delicioso pargo grelhado preparado para atacar essa deliciosa refeição, ainda que lhe custe pare por um momento e pergunte-se sobre a origem desse peixe que se encontra deitado e rodeado por uma boa cama de batatas salpicadas com um bom azeite e alho claro.


A principal atividade dos corvinos é a criação de gado mas quem por cá anda ou aqui esteve, sabe que o Corvo é muito mais do que isso.


O peixe aqui provém de uma pequena frota artesanal, cerca de 6 barcos, na maioria capturado por palangre de fundo e sem capturas acessórias. Por aqui pesca-se maioritariamente goraz, alfonsim, imperador, pargo e preferencialmente cherne o que infelizmente já é mais difícil de acontecer.


Inicia-se a faina sempre que o mar o permite e mais regularmente com o aproximar do verão já que o mar e o vento unem-se e fustigam a ilha muitas e muitas vezes. Mas sempre que possível os pescadores metem-se ao mar e procuram o peixe, umas vezes mais, outras menos, é esta a vida do pescador, mas sempre com a garantia, de que o faz com qualidade e elevado sabor. Exemplo disso é a sua exportação para o continente português e Espanha.


Voltando à sua refeição, saboreie, agradeça ao peixe e ao pescador e lembre-se: compre peixe que provenha das frotas artesanais, estará a contribuir para os pescadores locais, a apostar na qualidade e não na quantidade e principalmente a contribuir para a gestão e conservação do mesmo peixe que agora se encontra na sua frente para lhe saciara o apetite.


Autor: T. Pippa (SPEA)

Prato de_peixe

 

A observação de aves na Ilha do Corvo

Painho monteiro

Hoje o arquipélago açoriano - para além das reconhecidas potencialidades ao nível da observação de cetáceos, do mergulho e da caça submarina - integra o circuito do Birdwatching internacional, está inclusive referenciado como sendo o local mais importante para a observação de aves de ocorrência acidental.

A partir de 2005, este fenómeno tornou a ilha do Corvo um local de referência para ornitólogos e Birdwatchers que aqui se deslocam com o intuito de encontrar espécies da América do Norte na Europa. Ao longo dos meses de outubro e novembro esta ilha regista um inusitado movimento de turistas que, equipados com potentes teleobjetivas e tripés, palmilham os locais mais recônditos, para avistarem aves raras. E as possibilidades de serem bem-sucedidos, não têm paralelo no contexto europeu. Este tipo de turismo – que chega a esgotar a capacidade hoteleira da ilha – proporciona importantes receitas para a economia local.

Dada a sua posição geográfica, assente sobre a placa tectónica americana – situando-se praticamente à mesma distância da Península Ibérica e da Terra Nova – o Corvo insere-se numa das principais rotas migratórias entre a América do Norte e a Europa. Anualmente chegam ao Corvo dezenas de aves que aqui encontram condições para descansar e se alimentar, podendo fazê-lo por algumas horas, durante semanas ou até meses.

Desta forma os ornitólogos conseguem avistar, não só espécies nativas, como espécies migradoras que, eventualmente, nunca foram vistas no continente europeu. Ainda há poucos meses, após os fortes ventos de Leste que se fizeram sentir, foram observados na ilha do Corvo, três Grous comuns (Grus grus), dois adultos e um juvenil. Esta espécie passa o inverno no sul do continente português, mas o mais curioso é que já não era observada nos Açores desde 1933. No Corvo foi a primeira vez que tal sucedeu. Ao longo de várias semanas foram avistadas em diferentes locais, embora com maior frequência no interior do Caldeirão, um dos sítios mais importantes para a observação de aves na ilha do Corvo, e particularmente referenciado pelas publicações da especialidade. Já no início deste ano, registou-se a observação (junto à costa) de uma Garça-real americana (Ardea herodias), migradora rara do Neárctico. Mas já no ano passado foram observadas outras espécies raras, das quais destacamos: o Abetouro americano (Botaurus lentiginosus) e a Mobelha-grande (Gavia immer), avistadas pela primeira vez na ilha do Corvo.

Perante isto não restam dúvidas, que a ilha do Corvo é efetivamente um local privilegiado para a prática do turismo ornitológico.

 

Autor: PNC Foto: SIARAM

Uma utopia chamada Corvo

 

Desde a minha adolescência que as Ilhas dos Açores faziam parte do meu imaginário, cada artigo que lia sobre as maravilhas da sua vida marinha tornava uma visita a estas ilhas, uma necessidade. As baleias, os golfinhos, os grandes cardumes de pelágicos, as jamantas e tubarões, os meros… a ideia de um destino por descobrir, um mar por revelar que rodeava ilhas paradisíacas… aqui tão perto.

 

Foi só no já longínquo ano de 1996 que finalmente, os astros se alinharam e tive a oportunidade de fazer a minha primeira visita em busca do destino utópico com que tanto sonhava…e encontrei-o. Visitei e mergulhei na ilha das Flores, onde o peixe abundava, as gentes tratavam os desconhecidos como amigos as cascatas corriam pelas suas encostas verdejantes, enfim… tudo o que imaginara.

 

Cinco anos depois, chegava de armas e bagagens aos Açores, recém-formado em Direito deixava a vida de advocacia para trás em busca de uma vida em contacto com o mar – o mar dos Açores. Hoje, sinto-me privilegiado por ter visto e interagido com baleias, golfinhos, tartarugas, tubarões-baleia, jamantas etc... Mergulhei em todas as ilhas do Arquipélago, sempre em busca de algo mais, que ainda não conseguira ver e captar na memória (e na objectiva).

 

De todas as ilhas dos Açores só há uma que teima em se manter utópica – é a ilha do Corvo. A mais pequena do Arquipélago, apenas 17 Km2, uma das paisagens mais marcantes que possamos imaginar, ocupada por pouco mais de 400 habitantes e onde se encontra um local de mergulho mítico…o “Caneiro dos Meros”.

 

Localizado a cerca de 300 m da costa, o mais espantoso deste mergulho talvez não seja a sua vida marinha abundante, mas a razão pela qual esta existe. Esta é a única Reserva Voluntária dos Açores, única na região, e um exemplo a nível Nacional e Internacional. Criada em 1998 fruto do esforço do DOP (Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores) e da comunidade de pescadores da Ilha do Corvo. O resultado foi a sensibilização da comunidade de pescadores que decidiram não exercer qualquer esforço de pesca naquele local de modo a permitir que cada vez, mais mergulhadores pudessem usufruir da companhia destes peixes afáveis.

 

Hoje, o “Caneiro dos Meros” é habitado por um número indeterminado de Meros, sendo possível avistar de 8 a 10 Meros de grande porte num só mergulho. Por vezes podemos mesmo observar alguns comportamentos de territorialidade dos Meros que se juntam em volta dos mergulhadores, parecendo querer intimidar os outros Meros para que se afastem, havendo uma espécie de guerra pela atenção dos mergulhadores.

 

Mas os 14 anos de proteção da vida marinha desta zona, por parte da própria comunidade piscatória, levou não só à proteção dos meros deste local, mas de todo um ecossistema, um autêntico aquário repleto de espécies típicas dos fundos dos Açores...mas abundantes, de grandes dimensões, e sem receio do ser humano. Um mergulho neste local assemelha-se a uma viagem no tempo, que nos recorda como foram os nossos mares antes da pesca intensiva e como podem ser quando são tomadas as medidas certas para salvaguardar o nosso património natural.

 

A Reserva tornou-se um motivo de orgulho e talvez o melhor local de mergulho dos Açores, para benefício das gerações futuras de Corvinos e com um enorme potencial turístico. Apesar deste exemplo dado há mais de uma década, pela mais pequena ilha do arquipélago, ainda muitas ilhas dos Açores não possuem um único local onde a pesca tenha sido abolida e onde a população local e turistas possam ver, agora e no futuro, ao vivo, a riqueza deste grupo de ilhas que constituem um autêntico oásis de vida no Atlântico.

 

Por outro lado, da mais pequena ilha dos Açores vem um sinal de que a proteção dos nossos mares é um tema a que todos somos sensíveis, e que é possível encontrar soluções para a sua salvaguarda através do diálogo. E quando essa proteção parte da própria sociedade esse local é efetivamente de todos, criado pelo esforço conjunto, é motivo de orgulho e benefício para todos. Afinal de contas todos queremos que os nossos filhos e netos tenham a hipótese de ver a incrível vida marinha deste conjunto de ilhas chamadas Açores.

Uma utopia_chamada_Corvo

Autor: Nuno Sá, Wildlife photography

 

A Ilha do Corvo é uma Reserva da Biosfera - 5º Aniversário

 

O “Dia Mundial da Reserva da Biosfera”, que se comemora a 3 de novembro, marcou o início das atividades Parque Aberto 2012, e em simultâneo decorreu a celebração do 5º aniversário da classificação da ilha do Corvo como Reserva da Biosfera.

Para assinalar esta data, foi preparada uma sessão, que contou com duas apresentações, a primeira a cargo do Dr. Fernando Ferreira - Diretor do Parque Natural, que através de uma apresentação multimédia desenvolveu o tema: “A tua ilha é uma Reserva da Biosfera!”. Destacando as caraterísticas ambientais, patrimoniais e culturais da ilha do Corvo, como decisivas para a atribuição do prestigioso galardão. De seguida elencou as 3 funções básicas para ser Reserva da Biosfera, destacando as especificidades da ilha do Corvo. Enfatizou também as inúmeras potencialidades das áreas protegidas, alertando porém, para as responsabilidades na sua proteção e na sua preservação, não só como um contributo para o equilíbrio do universo, mas também enquanto legado precioso para as gerações futuras. Tal desiderato só se alcançará através de um desenvolvimento sustentável.

A segunda apresentação coube ao Dr. Frederico Cardigos – Diretor Regional dos Assuntos do Mar, que muito nos honrou com a sua presença.

O tema desenvolvido pelo Senhor Diretor Regional, para a celebração do 5º aniversário da classificação da ilha do Corvo como Reserva da Biosfera, incluiu uma conversa ilustrada com uma projeção dedicada ao mar que rodeia esta unidade geográfica. Durante cerca de uma hora foram descritas algumas espécies e habitats com a finalidade de sensibilizar os presentes – Grupo de Escuteiros (CNE) - Agrupamento 1181 do Corvo - para a utilização sustentada e responsável do gigante azul. Esta interessante apresentação foi elaborada tendo como intenção chegar a destinatários de idade juvenil, sendo ilustrada com oito dezenas de imagens.

Terminada a apresentação, houve lugar ao debate e à troca de questões. No final os participantes na sessão comemorativa ficaram a saber mais sobre as potencialidades do fundo do Mar, na Região Autónoma dos Açores, particularmente rico em minerais.

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As casas do Corvo já dispõem de painéis solares

 

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A primeira fase da colocação de painéis solares – iniciada no último verão – está praticamente concluída, uma vez, que cerca de 40 habitações corvinas já beneficiam do aquecimento de águas domésticas através da energia solar.

O Governo Regional em colaboração com a EDA e com o consórcio do projeto Green Islands, um dos principais projetos de investigação do programa MIT-Portugal, pretende instalar painéis solares e bombas de calor nas habitações da ilha do Corvo, visando a substituição dos equipamentos de gás de petróleo liquefeito (GPL), ao nível das cozinhas e das águas sanitárias.

Prevê-se que a segunda fase – que equipará cerca de 110 fogos - se inicie durante o primeiro trimestre de 2013. No seu conjunto, o projeto para aquisição e instalação dos equipamentos necessários ao aquecimento das águas sanitárias, apresentado ao Executivo Regional pela Câmara Municipal do Corvo, representará um esforço financeiro que rondará 1 milhão de euros. A concessão deste apoio resulta da celebração de um contrato ARAAL – entre a Vice-Presidência do Governo, a Secretaria Regional dos Recursos Naturais e a Câmara Municipal do Corvo.

A ideia passa, por encontrar opções para tornar uma ilha 100% dependente de combustíveis fósseis importados – o que se traduz numa fortíssima dependência de fontes externas, assim como contribui para o aumento da poluição - num sistema energético mais sustentável, com recurso, nomeadamente, às renováveis. Este fenómeno é particularmente significativo numa ilha, que apresenta dificuldades de abastecimento devido ao seu isolamento e às condições atmosféricas adversas.

O alcance – a médio prazo - deste projeto visa o aproveitamento da energia hídrica, através da construção de uma segunda lagoa artificial, que, será complementada com a energia eólica.

Pretende-se assim, reduzir a dependência dos hidrocarbonetos no Corvo para apenas 20 a 25 por cento, meta a alcançar dentro de alguns anos.

Autor: PNC