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Uma utopia chamada Corvo

 

Desde a minha adolescência que as Ilhas dos Açores faziam parte do meu imaginário, cada artigo que lia sobre as maravilhas da sua vida marinha tornava uma visita a estas ilhas, uma necessidade. As baleias, os golfinhos, os grandes cardumes de pelágicos, as jamantas e tubarões, os meros… a ideia de um destino por descobrir, um mar por revelar que rodeava ilhas paradisíacas… aqui tão perto.

 

Foi só no já longínquo ano de 1996 que finalmente, os astros se alinharam e tive a oportunidade de fazer a minha primeira visita em busca do destino utópico com que tanto sonhava…e encontrei-o. Visitei e mergulhei na ilha das Flores, onde o peixe abundava, as gentes tratavam os desconhecidos como amigos as cascatas corriam pelas suas encostas verdejantes, enfim… tudo o que imaginara.

 

Cinco anos depois, chegava de armas e bagagens aos Açores, recém-formado em Direito deixava a vida de advocacia para trás em busca de uma vida em contacto com o mar – o mar dos Açores. Hoje, sinto-me privilegiado por ter visto e interagido com baleias, golfinhos, tartarugas, tubarões-baleia, jamantas etc... Mergulhei em todas as ilhas do Arquipélago, sempre em busca de algo mais, que ainda não conseguira ver e captar na memória (e na objectiva).

 

De todas as ilhas dos Açores só há uma que teima em se manter utópica – é a ilha do Corvo. A mais pequena do Arquipélago, apenas 17 Km2, uma das paisagens mais marcantes que possamos imaginar, ocupada por pouco mais de 400 habitantes e onde se encontra um local de mergulho mítico…o “Caneiro dos Meros”.

 

Localizado a cerca de 300 m da costa, o mais espantoso deste mergulho talvez não seja a sua vida marinha abundante, mas a razão pela qual esta existe. Esta é a única Reserva Voluntária dos Açores, única na região, e um exemplo a nível Nacional e Internacional. Criada em 1998 fruto do esforço do DOP (Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores) e da comunidade de pescadores da Ilha do Corvo. O resultado foi a sensibilização da comunidade de pescadores que decidiram não exercer qualquer esforço de pesca naquele local de modo a permitir que cada vez, mais mergulhadores pudessem usufruir da companhia destes peixes afáveis.

 

Hoje, o “Caneiro dos Meros” é habitado por um número indeterminado de Meros, sendo possível avistar de 8 a 10 Meros de grande porte num só mergulho. Por vezes podemos mesmo observar alguns comportamentos de territorialidade dos Meros que se juntam em volta dos mergulhadores, parecendo querer intimidar os outros Meros para que se afastem, havendo uma espécie de guerra pela atenção dos mergulhadores.

 

Mas os 14 anos de proteção da vida marinha desta zona, por parte da própria comunidade piscatória, levou não só à proteção dos meros deste local, mas de todo um ecossistema, um autêntico aquário repleto de espécies típicas dos fundos dos Açores...mas abundantes, de grandes dimensões, e sem receio do ser humano. Um mergulho neste local assemelha-se a uma viagem no tempo, que nos recorda como foram os nossos mares antes da pesca intensiva e como podem ser quando são tomadas as medidas certas para salvaguardar o nosso património natural.

 

A Reserva tornou-se um motivo de orgulho e talvez o melhor local de mergulho dos Açores, para benefício das gerações futuras de Corvinos e com um enorme potencial turístico. Apesar deste exemplo dado há mais de uma década, pela mais pequena ilha do arquipélago, ainda muitas ilhas dos Açores não possuem um único local onde a pesca tenha sido abolida e onde a população local e turistas possam ver, agora e no futuro, ao vivo, a riqueza deste grupo de ilhas que constituem um autêntico oásis de vida no Atlântico.

 

Por outro lado, da mais pequena ilha dos Açores vem um sinal de que a proteção dos nossos mares é um tema a que todos somos sensíveis, e que é possível encontrar soluções para a sua salvaguarda através do diálogo. E quando essa proteção parte da própria sociedade esse local é efetivamente de todos, criado pelo esforço conjunto, é motivo de orgulho e benefício para todos. Afinal de contas todos queremos que os nossos filhos e netos tenham a hipótese de ver a incrível vida marinha deste conjunto de ilhas chamadas Açores.

Uma utopia_chamada_Corvo

Autor: Nuno Sá, Wildlife photography